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Dexametasona reduz tempo de entubação em doentes graves com covid, mostra estudo brasileiro

Um estudo brasileiro coordenado pelos principais hospitais privados do País mostra que o corticoide dexametasona foi capaz de reduzir o tempo de entubação em pacientes com quadros graves de covid, o que diminui o risco de complicações associadas à ventilação mecânica, como infecções e lesões causadas pelo tubo, e pode acelerar a recuperação do paciente.
O dexametasona é um anti-inflamatório antigo e de baixo custo, usado desde a década de 60 principalmente no tratamento de doenças inflamatórias e respiratórias, como artrite reumatoide e asma. O estudo avaliou o número de dias, dentro de um período de seguimento de quatro semanas, que os pacientes ficaram livres do uso de respiradores. No grupo que tomou a dexametasona, foram 6,6 dias. No grupo controle, que recebeu somente o cuidado padrão para a doença, foram 4 dias.

A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira, 2, no renomado periódico científico Journal of the American Medical Association (Jama) junto a outros três estudos internacionais que também avaliaram o desempenho de corticoides contra a covid. A conclusão é de que essa classe de medicamentos reduz a mortalidade por covid.
Participaram do ensaio clínico 299 pacientes de 40 hospitais públicos e privados do País, sob a coordenação de oito instituições: Hospitais Sírio-Libanês, Albert Einstein, HCor, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa de São Paulo, além do Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet).

Elas fazem parte da aliança Coalizão Covid-19 Brasil, responsável pela realização de nove estudos clínicos de possíveis tratamentos para a doença. Essa é a segunda pesquisa do grupo que tem seus resultados divulgados. A primeira, apresentada em julho, mostrou que a hidroxicloroquina, associada ou não ao antibiótico azitromicina, não tem eficácia no tratamento de pacientes internados com quadros leves e moderados de covid-19.
Os participantes foram divididos, de forma randomizada (por sorteio), em dois grupos: um deles, com 151 pacientes, foi tratada com dexametasona intravenosa por dez dias, e o outro, com 148 doentes, recebeu o suporte padrão. Para ser incluído no estudo o paciente tinha que estar entubado e com baixa oxigenação sanguínea.

De acordo com os pesquisadores, o estudo brasileiro não foi desenhado para medir o impacto na queda de mortalidade pois precisaria de uma amostra maior de pacientes e levaria mais tempo para ser concluído. Eles ressaltam, no entanto, que, além do resultado de redução no tempo de entubação, outros resultados confirmam o benefício da medicação no tratamento.
“Os outros resultados do estudo, mesmo não tendo diferença estatisticamente significativa, apontam para o benefício do corticoide. Os números de mortes e disfunção orgânica foram menores no grupo que tomou a medicação”, explica Luciano Cesar Pontes Azevedo, superintendente de ensino no Hospital Sírio-Libanês, integrante do comitê-executivo da Coalizão Covid-19 Brasil e um dos autores do estudo.

A pesquisa apontou ainda, de acordo com os cientistas, que o tratamento é seguro nos casos avaliados. “Uma das nossas preocupações era verificar efeitos colaterais que já conhecemos desse medicamento, como quadros infecciosos e aumento do nível de glicose no sangue. Vimos que o uso do dexametasona não veio acompanhado de maior frequência desses eventos”, explica o cardiologista Renato Lopes, pesquisador e professor da Unifesp e da Duke University (EUA), diretor da Brazilian Clinical Research Institute (BCRI) e também integrante do comitê-executivo da Coalizão Covid-19 Brasil.
Os pesquisadores alertam que o benefício e a segurança da dexametasona são válidos para pacientes graves com covid, que precisam de suporte respiratório. Para quadros leves ou iniciais, o medicamento não tem benefício comprovado e pode até piorar a condição. “O corticoide não vai curar a doença ou combater o vírus, ele vai modular a resposta inflamatória do organismo para combater uma reação exagerada. Só que essa resposta, no início da infecção, é o que combate o vírus. Ela só se torna prejudicial se fica desenfreada. Se você a bloqueia logo no início, pode aumentar o tempo dos sintomas”, explica Azevedo.

As novas evidências reafirmam os achados de um estudo da Universidade de Oxford (Reino Unido) divulgado em junho no qual a dexametasona mostrou-se capaz de reduzir em um terço o número de mortes entre pacientes entubados. A partir das novas pesquisas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deve divulgar nesta quarta-feira novas recomendações sobre o uso de corticoides.

FONTE: ESTADÃO

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